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Textos Sul-Americanos

De Jamaica ao continente americano

Bruno Peron, 26 de fevereiro de 2012

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“¿Quiere usted saber cuál era nuestro destino? Los campos para cultivar el añil, la grana, el café, la caña, el cacao y el algodón; las llanuras solitarias para criar ganados, los desiertos para cazar las bestias feroces, las entrañas de la tierra para excavar el oro que no puede saciar a esa nación avarienta.”

 

Países hispano-americanos comemoram o bicentenário de independência do jugo da ex-metrópole ibérica. Cartazes mencionam a data histórica em vias e edifícios públicos a fim de estimular a consciência e reavivar os ideais de um continente digno e menos conflitivo.

O venezuelano Simón Bolívar – também conhecido como “Libertador” – terminou a redação e remeteu a renomada “Carta de Jamaica” em Kingston em 6 de setembro de 1815 quando tinha 32 anos sob o título espanhol “Un caballero de esta isla” e a versão inglesa “A friend”.

A missiva não determina um nome a quem se destina, porém especula-se que tenha sido escrita como resposta à carta do inglês Henry Cullen a fim de sugerir o apoio da Inglaterra, nação naval poderosa no século XIX, à causa emancipadora hispano-americana. A ilha europeia atendeu a demanda, mas a contragosto do que Bolívar esperava, o que moveu-o a confiar mais na aproximação do precursor Haiti no movimento independentista hispano-americano (o Haiti declarou sua independência temporária em janeiro de 1804) com as figuras de François Dominique Toussaint Louverture e Jean-Jacques Dessalines.

Bolívar exerceu função militar e chegou a Kingston, colônia que se libertaria da Inglaterra em agosto de 1962, após três anos de luta a favor da independência da América Hispânica. Matutou sobre como nossa região se inseriria autonomamente no mundo após a libertação do domínio dos espanhóis “destruidores”, cometedores de “barbaridades” e “crimes sanguinários”, e “raça de exterminadores” em seus termos próprios.

O continente é tão vasto e imponente que Bolívar reconheceu ter “conhecimentos limitados” sobre ele, embora cite processos históricos e próceres das províncias do Rio da Prata, “virreinato” do Peru, Chile, Venezuela, “Nova Granada” (com a capital em “Santa Fe” ou na cidade que hoje é Bogotá, Colômbia), Panamá, Guatemala, México, Porto Rico e Cuba.

Bolívar transmite incerteza e insegurança sobre o que será do continente americano, que direito teremos e que governos nos regerão, mas deseja veementemente a união entre os países americanos para a formação da “maior nação do mundo” na América e a prosperidade das artes e as ciências neste continente.

Quase dois séculos à frente do período em que Bolívar escreveu a carta nos poucos meses que passou na Jamaica, vemos que as preocupações pouco mudaram. Seguimos sem conhecer nossos direitos e deveres e sem saber qual é o próximo patrimônio que se privatizará ou se entregará a “terceiros” a despeito do fetiche dos “avanços democráticos”. Nossa produção cultural e educativa tem recebido finalmente incentivos para construir nações mais integradas em vez de terrenos de processamento de mão-de-obra desqualificada.

Mantinha-se convergência de propósitos no início do século XIX quando líderes de nações hispano-americanas almejavam, acima de tudo, a autonomia política em relação à metrópole, que controlava o comércio internacional, o tráfico de escravos, e extraía impiedosamente nossas riquezas naturais.

Bolívar manifestou a consciência de que havia uma “ordem mundial” à que os países americanos pertenciam, mas que nos desfavorecia aos latino-americanos como supridores de insumos para o mercantilismo e o capitalismo incipiente que se desenvolvia noutro lugar. Daí que a “Carta de Jamaica” tenha sido um apelo à Inglaterra como estratégia para alterar os vetores de poder que nos enlaçavam exclusivamente à península ibérica.

A proposta internacionalista e latino-americanista do mencionado militar venezuelano foi inteligente e visionária, embora não contasse com que o capitalismo inglês assumiria proporções tão avançadas para o padrão da época que a dependência política cederia lugar à dependência econômica, o colonialismo ao neocolonialismo.

A Inglaterra foi precisamente o país onde ocorreram “revoluções” industriais. O apelo de Bolívar foi ao encontro da necessidade inglesa. Para mencionar o caso brasileiro, a Inglaterra causou a abertura dos portos ao comércio com as “nações amigas” pondo fim ao exclusivo comercial com Portugal, proibiu o trâfego de navios de escravos africanos, e endividou o país com empréstimos financeiros, inclusive para pagar em libras esterlinas pela “independência”.

Este efeito não invalida, contudo, o teor da herança do “Libertador”, que fundamenta cartilhas educativas e programas de governo na República Bolivariana da Venezuela. O presidente Hugo Chávez Frías tomou os ideais de Bolívar como sustentáculo de seu projeto de “Socialismo do século XXI”, um disparate aos olhos dos que não entendem a crise por que passa o capitalismo e ainda creem que este é a via única.

Não temo nem negligencio o recurso a fontes bibliográficas de gerações anteriores quando a informação é pertinente e vigente. Simón Bolívar respondeu à carta de Henry Cullen enquanto aquele exilou-se na Jamaica, mas o conteúdo dirigiu-se a nós mesmos, ferramentas desta transformação das nações americanas e união dos povos que está por vir.

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