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Textos Sul-Americanos

BRICS e o conto de fadas

Bruno Peron, 19 de julho de 2015

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O Brasil parece agora mais propenso a apoiar a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) entre o BRICS ­– foro constituído por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – que o projeto de Banco do Sul idealizado noutro momento entre países sul-americanos. Os encontros do BRICS levam adiante uma aposta profética de economistas e investidores da Goldman Sachs. Esta instituição financeira fica no coração nova iorquino de um país que o BRICS pretende desafiar com a criação de um banco e uma moeda alternativos.

Soa curioso que o BRICS seja conduzido como uma ideia que tem rendido acordos multilaterais entre países ditos “emergentes” ou “em desenvolvimento”, mais ainda em se tratando de Rússia como um dos integrantes. Rússia é uma potência mundial que, até há pouco tempo, confrontou durante décadas o sistema econômico dos Estados Unidos.

Desde julho de 2014, os países do BRICS lançaram a proposta de formar um banco de desenvolvimento que os impulsionaria diante de uma crise econômica global. A VII Cúpula do BRICS em Ufá (Rússia) em julho de 2015 conseguiu efetivamente cumprir seu objetivo de avançar em cooperação econômica. Discutiram-se, por exemplo, sanções econômicas unilaterais e intervenções militares. Durante esse evento, os líderes deste grupo oficializaram a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e de um Fundo de Reservas em moeda estrangeira. O banco entrará em funcionamento a partir de 2016, terá sede em Xangai (China) e capital inicial de US$ 50 bilhões.

Minha análise é que o Brasil dá passos largos com medidas arriscadas e que envolvem muitos recursos. É parte da autoconfiança em seu gigantismo econômico. Se acertar, poderemos colher incentivos ao desenvolvimento. Mas, se fracassar, a população pagará caro pelas vaidades de nosso governo.

A primeira pretensão do Brasil é a de ser tão mal resolvido socialmente, mas, ainda assim, emparelhar-se com países de histórias e realidades tão diferentes. Por exemplo, a Rússia briga com a União Europeia sobre a anexação de parte da Ucrânia e por isso sofre sanções econômicas. Esta é uma briga entre potências globais; logo, não se realiza entre pretendentes à condição de potência, como é o caso do Brasil.

Por sua vez, Narendra Modi – primeiro-ministro da Índia ­– define o BRICS como um “farol de esperança”, o que soa meio gracioso. Os líderes do BRICS têm percepções e interesses diferentes sobre esse agrupamento de países. Não tem como comparar o devaneio do Brasil em ser um jogador mundial com o papel efetivamente global de China (econômico) e Rússia (militar).

Apesar disso, a proposta política do Novo Banco de Desenvolvimento me parece mais relevante que seu objetivo econômico diante de uma ordem multilateral conturbada nas relações internacionais.

O Novo Banco de Desenvolvimento tem a intenção de financiar projetos de desenvolvimento sustentável e infraestrutura oriundos dos países do BRICS. No entanto, há também previsão de financiamentos eventuais de projetos de outros países entendidos como “em desenvolvimento” cujo empréstimo seja interessante para o grupo em termos econômicos e políticos.

É importante observar que o Novo Banco de Desenvolvimento almeja a redução da hegemonia do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional no mundo. O calote da Grécia ao segundo banco ilustra bem como até mesmo países da União Europeia encontram-se reféns de empréstimos bilionários dessas instituições financeiras de alcance global. O Novo Banco de Desenvolvimento também lançará outras moedas em operações financeiras internacionais em prejuízo do dólar estadunidense.

Até que isso se resolva, realço que já houve pretensões nesse caminho monetário de China e Venezuela, mas em ocasiões diferentes. Finalmente, o BRICS levará adiante a consolidação desse banco e de moedas alternativas ao dólar estadunidense. Certamente, algo precisa ser feito para equilibrar o afã ocidental de universalizar as economias e os modos de vida.

Nesse ínterim, confesso que a participação do Brasil inquieta-me. Nosso país é falastrão em sua política externa, já que vende imagens demasiadamente otimistas e positivas de seus avanços no cenário interno. Ainda, está claro para todos que temos doenças sociais muito mais prioritárias para resolver que as vaidades de estadistas que vivem no conto de fadas de Brasília.

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