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Textos Sul-Americanos

Bolso esquerdo de corsários

Bruno Peron, 18 de outubro de 2015

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Repetidamente, vi em redes sociais e escutei em conversas que o Brasil está prestes a tornar-se outra Cuba ou Venezuela. Assim, sem fundamentos. E que nosso país está a caminho do socialismo e somente este sistema seria a salvação diante do cenário persistente de desigualdades sociais. De fato, não há que coibir a imaginação de quem pensa assim; nem que reprimir a daqueles que ­–como eu –concebemos que o problema não está no socialismo ou capitalismo.

Igualmente, o debate entre esquerda e direita sempre me deixou com um pé atrás por ser classificador e taxativo. Embora ele tenha esfriado um pouco no cenário político brasileiro, aparece de vez em quando um ou outro comentário que se diz “de esquerda” e repudia “a direita”, ou vice-versa. Ou aquele entre bem e mal. Essas categorias posicionais poderiam ceder espaço a conversas mais fecundas sobre como tratar as coletividades e o bem comum.

No entanto, o Brasil é uma mina de ouro onde a maioria de seus habitantes somente cava para alcançá-la, mas não desfruta as riquezas. Se entendermos melhor a história, veremos que há um sistema contínuo que recebe acréscimos tecnológicos e ajustes jurídicos. Mas, na essência, é um modelo de colônia que produz para os mais influentes que estão dentro e para o mercado externo.

É difícil deixar de pensar na desflorestação, que cede lugar a práticas de mineração, agricultura e pecuária. Por mais forte que a lei ambiental pareça no Brasil e incentive a sustentabilidade, o aumento populacional desenfreado alarga as fronteiras da civilização colonial que se formou nesta região meridional do mundo. Não demoramos para constatar que a derrubada de árvores tem ritmo intenso, o número de bois supera o de humanos, e a cana-de-açúcar toma conta da paisagem rural em torno de muitas cidades.

Cada vez mais, exploradores deixam atos ambientais ilícitos em mãos de pessoas que não teriam fonte alternativa de subsistência ou que poderiam ser ainda mais pobres financeira e culturalmente. Portanto a sobrevivência vale mais que a lei num país que se estruturou para produzir a entes como a Família Real, as Nações Amigas, o Senhor de Engenho e atualmente o mercado internacional. Neste, os preços de nossos produtos (“commodities”) são ditados em dólar estadunidense e fogem do controle dos produtores.

Imagino se, em vez de toneladas de açúcar e pedaços de boi, o Brasil produzisse com tecnologia própria componentes eletrônicos, como Taiwan, Coreia do Sul e Cingapura fazem. Temos, ao contrário, um bando de oportunistas que desmotivam indústrias nacionais (o que temos de “nacional” são na realidade empresas estrangeiras que produzem aqui), oneram produtos importados com tributos (o que limita e encarece o consumo de brasileiros) e fazem greve em todo país (bancos, universidades, etc.) num momento em que o governo precisa reduzir gastos com burocracia e funcionalismo público.

Dessa forma, não há que iludir-se com essa estultice entre esquerda e direita. Seria mais proveitoso o desejo de que o Brasil se renove com uma geração de pessoas de esclarecimento e moralidade mais elevados para interromper esse fluxo pernicioso de nossa história colonial. O Estado sempre foi ferramenta de maquinações egoístas e opressivas no Brasil. Todos que propuseram alternativas redentoras foram massacrados: Zumbi de Palmares, Antônio Conselheiro, ...

Isso posto, o alívio nas costas de todo brasileiro se fará sentir inicialmente com a implosão de Brasília e o fim dos privilégios com dinheiro público. Governos saem e outros entram com a falácia de reduzir desigualdades sociais, melhorar salários, acabar com a miséria. Mas a mina de ouro continua bem resguardada por corsários e oportunistas que ora enchem o bolso direito, ora o esquerdo, e abusam da credulidade dos seres que habitam o Brasil.

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