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Textos Sul-Americanos

Nem célere nem pacífica

Bruno Peron, 29 de novembro de 2015

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Toda vez que algum conflito grave estoura no mundo, brasileiros esfriam temporariamente sua agitação antipatriótica (e.g. a Dilma ser culpada de toda desgraça, ter vergonha de ser brasileiro, este país não ter jeito mais) para ceder espaço a outras sensações. É assim que as crises que fragilizam o Brasil –mais institucionais que econômicas –intensificam o desespero pela sobrevivência em nosso país. Nesse ínterim, acompanhamos o medo vivido na França, na Bélgica, nos Estados Unidos, e rumores sobre a Síria.

O descrédito institucional é tamanho no Brasil que se acenderam luzes nas cores da bandeira francesa para iluminar o Cristo Redentor, o Itamaraty e outros edifícios públicos. É verdade que o esplendor civilizatório da França já deu sustentação (e continua a dá-la) a instituições brasileiras (sobretudo as de política cultural) e não só em “baguettes”, “toilettes” e queijos diversos.

Todavia, hoje a França é uma civilização à beira do colapso e do apocalipse intercivilizatório; não só do ocaso que resulta do excesso de acentuação em sua língua (agudos e crases), como nosso Monteiro Lobato vaticinou. Esse sintoma custa a clarear nas mentes de nossa elite venal e vira-lata, que nunca olhou para as necessidades do povo governado e sujeitado.

Nessa interação entre fonte de poder e saber (França) e recipiente de enxertos culturais (Brasil), um ato terrorista é a gota d’água de um confronto que sempre foi global. Assim sucedeu naquela sexta-feira treze. E, por causa da ignorância da maioria dos telespectadores, comprou-se a ideia parcial de que o terror sempre possui um culpado e que não se demora muito para localizá-lo. A mesma história da Al Qaeda agora vira para o Estado Islâmico, que é um inimigo coincidentemente presente em todos os países já alvejados pelo Ocidente desde muito antes dos atentados de novembro em Paris.

A assimilação deste conflito intercivilizatório pelos habitantes do Brasil ocorre como planejado pelos detentores do poder: a confusão do extremista com o muçulmano. Daí que a pacífica comunidade islâmica no Brasil (e alhures) se discrimine mais no Ocidente e se veja vulnerável ao desconforto que os cristãos poderosos sentem com a perda de poder e influência no mundo.

Ideal seria que o Brasil cuidasse mais de seus assuntos internos, até quando seus porta-vozes políticos e jornalísticos emitem alguma opinião, e tentasse libertar seu povo oprimido em vez de tomar posição nesse conflito global. No entanto, pouco esforço se faz fora de blogues e redes sociais com pessoas bem informadas para mostrar o massacre de milhares de pessoas comuns e inocentes na Síria, na Líbia, na Palestina. E ainda vêm esses profissionais genuflexos recontar a história do ponto de vista dos mais poderosos ao povo brasileiro, que vê seu país transformar-se num zoológico contraeducativo.

A opção é urgente: assumir que os privilegiados cairão cedo ou tarde. Lá fora, são aqueles que promovem guerras noutros países em troca de riquezas materiais, enganam a câmbio de prestígio, como os líderes últimos de Estados Unidos, França e Inglaterra. Internamente, no Brasil, a situação é igualmente grave, embora com a aparência de que está organizado e funcionando, pois há uma guerra tácita entre privilegiados e marginalizados.

O dislate de voltar a cobrar o imposto CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) dos brasileiros é um exemplo claro não só da ruína em que o Partido dos Trabalhadores deixou o Brasil. É também do desespero das castas de funcionários públicos em busca de receitas para sustentar seus salários muito acima da média de mercado e outros privilégios. A pressão sobre as classes produtivas é tanto que se sacrifica a economia nacional para manter um modelo que vem desde a época colonial.

Mas justiça será feita tanto no mundo como no Brasil. Desafortunadamente, o processo não é pacífico, já que envolve divergências de opinião, confrontos armados, terrorismo e aumento de violência. A carnificina em Paris, a migração em massa de sírios à Europa, e a sequência de crises que denigrem o Brasil indicam que outro mundo está em fase de fabricação.

As gerações que lutam pela sobrevivência na Terra apenas veem os destroços dessa transição planetária, que não será célere nem pacífica.

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