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Textos Sul-Americanos

Senso de prepotência

Bruno Peron, 24 de janeiro de 2016

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Poucas contingências abalam tanto o senso de prepotência do Clube dos Cinco (Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China) quanto a de que outro país fabrique armas nucleares. Tais países vivem em função de guerras e demonstram seu instinto de preservação através de sua razão de Estado.

É assim que os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – formado pelos cinco países apontados acima – recomendaram ao Irã que assinasse um acordo para comprometer-se a não enriquecer material nuclear para fins militares. As negociações foram demoradas e possivelmente a China tenha sido o país mais otimista quanto ao sucesso dos diálogos a favor da ratificação do acordo.

Em julho de 2015, em Viena, o Irã assinou por fim o acordo nuclear proposto por Estados Unidos, União Europeia (com seus 28 Estados-membros) e Nações Unidas. Do contrário, o Ocidente continuaria prejudicando o Irã com sanções. Para fugir desse isolamento forçado, o Irã acabou cedendo às condições estipuladas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Uma é a de limitar o enriquecimento de plutônio e urânio; outra é a de permitir o reforço das inspeções desta agência internacional em território iraniano. Há outras também, como a de que esta agência poderia realizar inspetorias inesperadas em qualquer local que considere vulnerável no Irã.

Visivelmente, há receio do Clube dos Cinco (tomo a liberdade de escrever assim) de que emerjam outros detentores de capacidade bélica nuclear. A preocupação é maior com países do Oriente Médio devido aos interesses geoestratégicos nesta região, tão venerada pelos amantes de combustíveis fósseis (e.g. petróleo, gás natural). Ainda, o Oriente Médio representa um território de conexão entre três continentes: Europa, Ásia e África.

O receio indicado no parágrafo anterior tem base na constatação de que armas nucleares são instrumentos de jogador grande, não para qualquer um. Quer dizer, inspeções só são válidas em países que ainda não têm programa nuclear voltado a fins militares, enquanto agência nenhuma fiscaliza o arsenal nuclear robusto do Clube dos Cinco. Não há só o esforço de atacar senão também coibir o adversário de possuir ferramentas de dissuasão.

Logo, existe uma ordem pactuada entre Estados soberanos que se faz clara através dos diálogos travados na Organização das Nações Unidas; evita-se, assim, um conflito maior que prescindiria de negociações diplomáticas. Países como o Irã, a fim de preservar seus modos de vida, acabam sujeitando suas políticas a condições propostas pelos mais poderosos.

Uma destas condições reflete-se no alívio de John Kerry – Secretário de Estado dos Estados Unidos – no tocante a que, devido ao acordo que o Irã assinou em julho de 2015, este país teria limitações maiores em seu programa nuclear. Mais especificamente, Kerry assinalou que o tempo que o Irã necessitaria para desenvolver uma bomba atômica passou de dois/três meses para um ano, e que nunca o poderia fazer de forma secreta.

Para júbilo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Agência Internacional de Energia Atômica confirmou em janeiro de 2016 que o Irã cumpriu todas as exigências do acordo nuclear assinado em julho em Viena. Portanto se derrubam as barreiras comerciais e políticas impostas ao Irã para que este país relacione-se com o mundo sem restrições interesseiras.

Não obstante, o mundo dos países mais poderosos não funciona só com negociação; acima disso, está o interesse inflexível de seus estadistas e a cumplicidade de seus canais de notícias e de outros meios de domesticação de massas. É o realismo do papel de Estado e da sobreposição desta entidade administrativa a todos os demais atores que interagem nas relações internacionais. A voz dos pequenos alcança-nos como um clamor defensivo de socorro, quase como um sussurro do divertimento de telefone sem fio.

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