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Textos Sul-Americanos

Uruguai e a saída dos fundos

Bruno Peron, 23 de janeiro de 2017

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O Uruguai não teme acontecimentos nefastos na integração latino-americana, como se observa no processo que se tem chamado Uruexit. A linha de conduta do presidente uruguaio Tabaré Vázquez tem sido a de abertura comercial, custe o que custar. E, de fato, tudo tem um preço. Mas parece que o Uruguai está disposto a pagar por ele.

É praticamente consensual que o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), que emergiu em março de 1991 com o propósito inicial de reduzir tarifas para uma integração aduaneira, sofre hoje um revés. Enquanto o ingresso da Venezuela como membro pleno provoca discórdias no bloco (os poderes legislativos brasileiro e paraguaio não foram favoráveis à aceitação da Venezuela), os dois países de território pequeno (Paraguai e Uruguai) demandam que os grandes (Argentina e Brasil) não os sufoquem.

Mesmo Argentina e Brasil conflitam entre eles sobre o que passa ou não pela fronteira com tributos baixos ou nulos. Na essência, esses dois países tiveram momentos de maior protecionismo e herdaram a forma de regular a economia através da presença forte do Estado. Quiçá o desenvolvimentismo dos anos 1960 e 1970 – que teve impulso nas ideias oriundas da Comissão Econômica para América Latina e Caribe – seja recuperado de certa forma no receio de perder mercados e competir deslealmente.

No entanto, alguns países latino-americanos governam-se por líderes que acreditam noutro horizonte para o desenvolvimento econômico. Chile e Peru seguem cada vez mais os passos de México e Estados Unidos; tal é o exemplo da formação da Aliança do Pacífico, que se abre ao mundo num modelo de regionalismo aberto. Nesse ínterim, o MERCOSUL enclausura-se ao comércio internacional – é tudo ou nada, ou seja, negocia somente em bloco com outros países e regiões – e oferece poucos remédios para que seus países vençam suas crises. O Uruguai tem feito de tudo para não dar as costas ao mundo porque entende que os prejuízos seriam imensuráveis.

É nessa esteira que se tem falado de Uruexit da mesma forma que a previsão do Brexit (em referência a Britain, ou à saída do Reino Unido) traz implicações sérias para a União Europeia. Numa década em que os radicalismos intensificam-se, as economias lutam para sobreviver e os refugiados de guerra tomam as ruas europeias, o Reino Unido deixará o bloco ao qual pertence. Naturalmente as oscilações cambiais, as incertezas migratórias e as especulações econômicas tomam conta da Europa.

Quase que por imitação, o Uruexit revela as carências e as dificuldades que o MERCOSUL tem enfrentado para manter-se de pé. Essa hesitação do bloco advém da divergência de propósitos que cada país integrante persegue. Enquanto a Argentina vive do passado (don’t cry for me, Argentina; o autoritarismo ainda sopra na memória), o Brasil apressa um futuro incerto (em sua pretensão de grandeza e liderança).

Poucas alternativas restam aos países menores do MERCOSUL. É nesse contexto que o dragão chinês aproxima-se do Uruguai como um território portuário estratégico para acesso à América Latina. Não quero dizer com isso que esta é a única porta de entrada, já que a China penetra de uma maneira ou de outra nestes mercados, mas que o aliciamento do Uruguai abalaria os pilares de sustentação do MERCOSUL.

Acrescento que essa reorientação estratégica do Uruguai antecede-se por seu incremento de comércio e aproximação do Chile. O receio, neste momento, é de que o Uruguai retire-se do MERCOSUL pela saída dos fundos para cuidar de seus interesses nacionais. Assim, esse sustentáculo do MERCOSUL proporia um desafio enorme aos outros países do bloco, que é o de como dirigir em novo sentido essa região da América Latina para que ela efetivamente supere os problemas mais urgentes de integração.

O orgulho dos grandes é o de nem sempre ouvir os pequenos.

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