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Textos Sul-Americanos

Ceviche, miséria e opulência

Bruno Peron, 12 de fevereiro de 2017

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Neste último lustro, políticos corruptos têm sido caçados como em poucos outros momentos da história da América Latina. É notável que o Brasil, por exemplo, tem ocupado páginas infindáveis de jornais em vários países, já que há redução de pena para “delação premiada” e rupturas de acordos que eram até então velados. O combate aos usurpadores de dinheiro público alastra-se de tal forma a citar nomes como o do economista e ex-presidente peruano Alejandro Toledo, que deixou de dirigir um país sul-americano para dar aulas na prestigiosa Universidade Stanford nos Estados Unidos.

Alejandro Toledo foi presidente do Peru de julho de 2001 a julho de 2006. O desejo que antecedeu a vitória de Toledo era acabar com a era de Alberto Fujimori, que fugiu ao Japão também acusado de corrupção, mas foi anos depois em 2005 encarcerado numa visita que fazia a Santiago de Chile e extraditado. Havia no Peru o desejo de eleger um governante que se aproximasse das pessoas mais simples e contivesse a abertura descontrolada ao capital estrangeiro. Talvez isso tenha ocorrido mais adiante somente com a eleição de Ollanta Humala. Na verdade, este é o propósito que contagiou vários líderes latino-americanos no início do século XXI.

Não se abriria mão, entretanto, da sistemática dos subornos e das propinas que se estendeu à cúpula da política latino-americana. Foi assim que a Odebrecht – conglomerado de empresas brasileiras que atuam nos ramos de construção, energia, engenharia e química – passou por cima da concorrência com a oferta de propinas milionárias. Toledo é acusado de ter recebido US$ 20 milhões para favorecer a Odebrecht numa concessão que resultaria da construção de uma rodovia transoceânica entre Peru e Brasil.

Num desses empreendimentos, a empresa superfaturaria a obra e colocaria asfalto de qualidade similar à que conhecemos nas cidades esburacadas brasileiras. Haveria um gasto público bem acima do necessário para construir essa rodovia e o povo peruano teria perdido recursos de suas políticas sociais (habitação, educação, saúde). Essa lógica da propina é muito comum entre políticos e empresários, como se tem acompanhado pela prisão de Eike Batista no Brasil. Muitos dos negócios milionários deste empresário se condicionaram pelo pagamento de propina a políticos, como recebia o também preso e ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

É num desperdício de responsabilidades que Alejandro Toledo mergulhou, sem medir as consequências do enriquecimento e de sua política de influências. Em fevereiro de 2017, o governo peruano emite ordem de prisão temporária de dezoito meses contra Alejandro Toledo e um comunicado internacional para capturá-lo. Oferece recompensa de US$ 30 mil a quem der alguma informação em qualquer país que leve ao paradeiro do ex-presidente Toledo. Rumores indicam que ele esteja nos Estados Unidos ou na França.

A justiça peruana acusa Alejandro Toledo de crimes de lavagem de dinheiro e tráfico de influências. Pensa-se que, se Toledo não devesse nada à justiça peruana, ele se apresentaria sem qualquer pudor para prestar depoimento sobre as acusações que pesam sobre ele; ou se não tivesse receio de ser julgado, como Eike Batista fez. Esse sumiço, porém, já indica a imprevidência de Toledo com o povo peruano que ele representou durante cinco anos e que existe nessa acusação ao menos um fundo de verdade.

É possível ampliar o assunto e afirmar que o fenômeno que analiso é efetivamente global. O véu das frutas podres tem caído repentinamente: a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e sua visão grosseiramente conservadora; os radicalismos religiosos na Ásia e na Europa; a perseguição aos corruptos na América Latina. A maioria deles tinha tudo para dar certo sem cair nas tentações do dinheiro e do poder; e consequentemente sem a necessidade de enriquecer e influir através da subjugação do outro.

Países da América Latina têm assistido a uma reviravolta de como lidar com temas de corrupção. A impunidade está com os dias contados. Já não se aceita mais que a miséria de muitos financie a opulência de poucos.

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