Retorne ao site institucional brunoperon.com.br

Textos Sul-Americanos

Povoamento inconsequente

Bruno Peron, 6 de março de 2017

  • Compartilhe no Twitter
  • Compartilhe no Facebook
  • Compartilhe no Google+
  • Compartilhe no LinkedIn

Chamou minha atenção, nos primeiros dias de março (ano novo no Brasil, já que só funciona depois das festividades do Carnaval), o noticiário sobre caminhões atolados na BR-163, que liga os estados de Pará a Mato Grosso. Há duas situações para debate: uma é a precariedade infraestrutural do norte; outra é a incúria ética e ambiental que macula o futuro da Amazônia.

Coincidentemente, eu estava em Belém entre o fim do Carnaval e o início do ano novo brasileiro. Pude, assim, experimentar os sentidos de uma cidade grande rodeada de rio e selva, da herança azulejada dos portugueses que se ensombrece por edifícios altos, e de um acesso vibrante à modernidade de shoppings. Enquanto os colonizadores europeus conduziam suas disputas no ultramar e protegiam seus territórios com fortalezas de pedra, os colonos brasileiros povoaram para que pudessem ter um suposto controle sobre seus territórios. A história do Brasil oscila entre exploração e devastação.

As fortalezas inúmeras na região norte e nordeste atestam a preocupação dos portugueses com a garantia de seus pedaços de terra conquistados: Fortaleza de São José de Macapá, Forte do Castelo de Belém, de São Luís, de João Pessoa... Em seguida, a ganância material cede espaço às decisões mal tomadas de expandir as fronteiras territoriais pelo povoamento na direção oeste do Brasil. Assim, os colonos fundaram as cidades de Manaus, Rio Branco... E a fronteira do homem devastador não para de ampliar.

Essa tomada territorial no interior do Brasil não foi, entretanto, impedimento para que estrangeiros se embrenhassem na Amazônia. A produção de borracha foi incentivada pela Ford, bases científicas e militares norte-americanas convivem com aldeias indígenas, consumidores europeus e asiáticos solicitam nosso gado e soja. A pecuária e a monocultura, a propósito, têm causado desarranjo em reservas ambientais no norte do país.

A BR-163 é apenas uma fração representativa de um problema que é muito maior que o atoleiro de caminhões e a chegada de soja aos portos do Pará (sobretudo em Miritituba e Santarém). Governantes do Brasil tomam decisões equivocadas que terão impacto devastador para a riqueza ambiental e étnica da região. Em vez de criar zonas intocáveis de proteção ambiental e protegê-las da ação nefasta do próprio homem, assistimos à expansão urbana e produtiva em área amazônica com aval de governantes. Estes fomentam o “desenvolvimento”, o “crescimento” e a “exportação”, já que devem prestar contas de sua gestão através de números. A proteção ambiental e étnica, contudo, limita-se às ficções de literatos, ambientalistas que arriscam suas vidas, e estrangeiros preocupados verdadeiramente com a ciência.

O Brasil é um país que tarda a produzir; e só o faz quando o caixa do governo também ganha algo. Veja o alastramento de festas que duram até poucos dias depois do término oficial do Carnaval, quando ainda se notam “blocos” e pessoas sorridentes dançando nas ruas. Até que as “águas de março” lavam as ilusões do brasileiro e revelam sua miséria civilizatória.

Abriram-se rodovias entre árvores frondosas e aldeias indígenas. Esse é o preço do “progresso” que nossa bandeira promete oferecer-nos com “ordem”. Mas não acredito nas versões oficiais da história. Elas escondem o ponto de vista dos oprimidos pelo “desenvolvimento” e a voz taciturna da natureza, que poucos além dos povos originários conseguem ouvir. O isolamento de reservas ambientais para fins exclusivamente científicos, tecnológicos e turísticos é uma idealização que se torna quimérica no Brasil.

Aos poucos e sem perder a evidência, o interesse econômico de colonos une-se com a imprevidência egoísta de políticos para que, num futuro não muito distante, o Brasil torne-se um deserto improdutivo, seco e inóspito.

Desenvolvimento: chiavegatti.com.br