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Textos Sul-Americanos

Vícios de imitação

Bruno Peron, 5 de abril de 2017

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Brasileiros nunca estão contentes com o que o Brasil é e sempre almejam aquilo que o país não é. No entanto, uma coisa é não ser ainda, e outra é jamais poder ser. Meu argumento é de que os tropeços históricos e os desentendimentos sociais do Brasil têm-nos levado a configurar um país autêntico e múltiplo. É claro que esse cenário não se constitui sem que haja conflitos e dúvidas no caminho. Congregamos o melhor e o pior que o mundo já produziu numa Arca de Noé onde os seres nela se estranham. O Brasil prepara-se para algo maior, um cenário de mudanças que foge da engenharia política que nos corrompe e dos desajustes culturais que nos amesquinham.

Hoje, brasileiros de níveis variados de instrução convivem nos espaços públicos: trombam-se em calçadas, entreolham-se em lojas, avistam-se como vizinhos, auxiliam-se como prestadores de serviços, comentam o mesmo vídeo que visualizam no YouTube, polemizam no Facebook. O Brasil alberga seres realmente bem diversos: uns deveras boçais, aos quais foge o entendimento até mesmo de situações banais; e outros que são letrados, ambiciosos, empreendedores, inovadores. Que proveitoso será ao Brasil quando estes predominarem sobre aqueles no desejo de trabalho e cooperação para um país melhor.

O que temos hoje, porém, é depravação cultural e institucional. Explico-me. A ânsia de tornar-se funcionário público supera o desejo de criar e inovar em iniciativa privada. Servidores públicos no Brasil são tão corrompidos que esperam ser servidos pela população em vez de servir a ela. Eles sugam recursos públicos e deixam aos seres de bem pouca alternativa à multiplicação de tributos, a censura e o dirigismo de Estado. Dele, emanam vícios de imitação inacabáveis e nocivos. Como se não bastasse, senadores brigam com procuradores, deputados desafiam presidentes, e juízes ficam sem saber como agir.

Um exemplo corriqueiro de depravação cultural é o fenômeno “delivery” nos serviços de entrega por motoqueiros, que são o termômetro dos males do Brasil. As relações de trabalho realizam-se cada vez menos formalmente; nossa malha viária é precária, esburacada e mal planejada; e estrangeirismos tomam conta da coloquialidade brasileira, como em “delivery”, “hair style” e “built to suit”. Ainda, um motoqueiro há pouco me revelou que é vantajoso ter moto porque trafega entre os carros, junto com eles, cortando filas e – pensei – aumentando chances de acidentes sem que as autoridades façam absolutamente nada para resolver o problema. Uma atrocidade civilizatória! Pobre Brasil!

É mais marcante, quando se fala de vícios de imitação, que as elites (e ultimamente as chamadas “classes médias”) adulem tudo que é importado, exceto chinês. Uma apologia à modernidade ocidental. Foi assim nas vestimentas usadas no século XIX em pleno calor tropical, nos ideais políticos que brotaram na França e na Inglaterra, no inglês de negócios que se propaga de instituições dos Estados Unidos, nas políticas de ação afirmativa oriundas de países que segregam grupos étnicos (e.g. cotas para afrodescendentes ou “negros”).

O Brasil não é legível para qualquer intérprete. Mesmo um dos intelectuais mais autênticos e produtivos deste país – Gilberto Freyre – é criticado por mitos que ele nunca propôs. Falta aos críticos uma leitura atenta e minuciosa da obra de Freyre. Há que ter bagagem cultural elevada para entender os meandros do Brasil e, por conseguinte, guiar seu progresso com fidelidade à sua multiplicidade de formas, combinações e desígnios. A imitação é inevitável. Há busca insaciável por referências a partir das quais brasileiros moldem suas preferências e seus gostos. Por isso, podemos aproveitar este e descartar aquele. O problema é quando a imitação é viciosa.

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