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Arestas do Brasil / Edges of Brazil

Exasperação de radicalismos

Bruno Peron, 17 de janeiro de 2017

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A América Latina ocupa um meio-campo intrigante nas disputas globais pelo poder. Alguns de seus países inclusive pleiteiam vaga no clube dos poderosos, como o Brasil propõe incansavelmente através de suas missões de “paz” (por exemplo, no Haiti), e ofertam candidatos a cargos elevados em organismos internacionais (Roberto Azevedo como diretor-geral da Organização Mundial do Comércio). É mais viável dizer que a América Latina favorece o equilíbrio de poder em vez de causar qualquer risco às potências.

O conflito maior persiste no hemisfério norte, onde refugiados batem na porta do desenvolvimento para cobrar a melhoria de vida que nunca tiveram em seus países de origem. É nesse contexto que a estadista alemã Angela Merkel recebe críticas duras feitas pelo norte-americano Donald Trump devido ao acolhimento de imigrantes sírios e outros que têm sido arruinados por guerras.

Enquanto refugiados caminham centenas de quilômetros entre continentes embaixo de frio extremo e contra barreiras de autoridades fronteiriças, outros apinhados em botes oriundos da África tentam cruzar o mar Mediterrâneo. E a história de radicalismos não acaba assim... em boates de Paris e Istambul, numa feira natalina em Berlim, o terrorismo faz dezenas de vítimas.

É verdade que, em várias capitais europeias, são comuns bairros inteiros formados por imigrantes chineses, turcos, caribenhos, muçulmanos, indianos, latino-americanos. Esses grupos étnicos, onde quer que estejam, mantêm os hábitos alimentares, vestem os trajes típicos e seguem as religiões que marcaram sua origem. Esses movimentos migratórios têm redesenhado as identidades europeias, como quando se fala de islamização da Europa.

Os conflitos, porém, não têm origem simplesmente nesse redesenho étnico, tendo em consideração que o respeito às diversidades é um tema que teve repercussão lá mesmo na Europa. Basta pensarmos nos princípios básicos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que fundamentam tantas políticas culturais. O problema surge devido ao conservadorismo e à intolerância que, na prática, norteiam a Europa. E o desespero é ainda maior agora que a guerra já não acontece mais somente em outro lugar, distante das civilizações. Os radicalismos e o terrorismo cobram dos berços civilizatórios europeus aquilo que durante séculos se espoliou da Ásia, da África e da América Latina.

Entre os países latino-americanos, há uma sensação de mal-estar que busca um culpado, mas jamais encontra. Na dúvida e no desconhecimento, denigrem-se personalidades públicas e corrompem-se esperanças. É assim que, no Brasil, afasta-se por motivos dúbios a presidente Dilma Rousseff, que havia sido eleita democraticamente; na Argentina, o presidente Maurício Macri tem seu carro apedrejado; na Venezuela, Nicolás Maduro faz de tudo para manter-se no poder; e, no México, Enrique Peña rejeita a sugestão de Trump de que os mexicanos devem pagar a conta do muro fronteiriço.

Os radicalismos, portanto, não têm somente cunho religioso, cujo reducionismo sai frequentemente da boca de líderes como o próprio Trump, recém-eleito como presidente dos Estados Unidos. Ele teve a coragem de dizer que vai barrar a entrada de muçulmanos em seu país. É também radical aquele que constrange o desenvolvimento cultural, econômico e social de outras pessoas; disso a América Latina tem exemplos fartos.

Os governos latino-americanos sugam até o osso os trabalhadores destas glebas para sustentar as castas de funcionários públicos caros ou desnecessários, corrupções e outros desvios. Estas terras do cada-um-por-si, onde as leis são elegantes mas desconhecidas, estão muito distantes da noção de espaço público e das culturas cívicas e politicas que vigoram nas civilizações da Europa ocidental. Logo, suas sociedades acabam conformando-se com rebeliões em presídios (como os do Amazonas e Rio Grande do Norte), populações combalidas com carência de educação, renda, segurança. Este mundo precisa de uma revisão ética profunda.

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