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Arestas do Brasil / Edges of Brazil

De olho na integração latino-americana

Bruno Peron, 8 de fevereiro de 2017

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O Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) está tão à deriva, solto no mar como as Malvinas ficaram, que oscila entre o fechamento de suas fronteiras (por exemplo a caminhões de transporte de carga) e o apelo comercial aos países membros da Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). A reunião presidencial entre o argentino Maurício Macri e Michel Temer em 7 de fevereiro de 2017 confirma que o MERCOSUL terá dificuldade de sair dos protocolos, tratados, emendas e agências que aumentam a burocracia.

Tal impasse intensifica-se com a suspensão recente da Venezuela, que mal entrou no bloco e já foi retirada, o risco de o Uruguai buscar outros caminhos de integração, e as travas comerciais entre Argentina e Brasil. Estas ocorrem mais recentemente através da indisposição argentina de reduzir tributos sobre o açúcar e as peças automotivas brasileiras. O propósito de um mercado comum ainda é distante, já que esbarra nas pressões momentâneas que fabricantes de cada país exercem sobre os produtos concorrentes.

Dessa forma, muito se critica o protecionismo praticado por países mais desenvolvidos enquanto se desconsidera aquele que se efetiva na América Latina. É fato que Donald Trump tem baixado o véu da política dos Estados Unidos em vários aspectos: econômico (barreiras protecionistas), sanitário (mudanças no Obama Care), migratório (impedimento da entrada de pessoas muçulmanas oriundas de sete países). Suas medidas como presidente recém-empossado já têm causado transtornos tanto internos (protestos em vias públicas) quanto externos (muro na fronteira entre Estados Unidos e México, revisão do Tratado de Livre Comércio da América do Norte).

Nessa esteira de mudanças e reafirmações políticas, líderes da América Latina reorganizam-se a fim de reduzir os prejuízos em suas relações com países mais ricos. Convocam reuniões, para tratar até de alternativas ao que vem sendo feito durante anos. O efeito mais claro das ações de Trump incide sobre o México, que finalmente terá a chance de aceitar sua latino-americanidade e diminuir sua dependência do mercado norte-americano.

Como a economia internacional não se movimenta sem o combustível da política e da hierarquia de poderes globais, líderes do MERCOSUL agarram o bonde da crise e do estancamento institucional. É assim que a atmosfera da reunião entre Macri e Temer em 7 de fevereiro de 2017 exalou o odor de economias que não crescem, da alta do desemprego e do excesso de burocracia que desmotiva o desenvolvimento desses países.

Curiosamente, esse cenário incerto do MERCOSUL desperta o interesse deste bloco em agilizar as negociações comerciais com a União Europeia (UE) e observar os avanços da Aliança do Pacífico. Embora o MERCOSUL tenha por regulamento a negociação em blocos, e que assim seja menos voltado a acordos bilaterais, esses dois mecanismos de integração latino-americanos não se podem considerar como equivalentes. Entre eles, há diferenças flagrantes de orientação econômica e política, desde a forma como se aceita a presença dos Estados Unidos na região (e vice-versa) até o tipo de abertura e de acordos comerciais.

Apesar dessas diferenças ideológicas e políticas, Macri e Temer manifestam seus esforços para que Argentina e Brasil ampliem a cooperação e resolvam seus problemas de integração sem ignorar os exemplos que vêm de outros agrupamentos de países, como a Aliança do Pacífico. Por conseguinte, as reuniões formais entre líderes poderão gerar resultados mais satisfatórios que uma pilha de atas e protocolos da reiterada burocracia latino-americana.

A eleição de Trump desperta a América Latina de um sono duradouro, que foi provocado pelos vícios da colonialidade e da subalternidade. Acostumamo-nos a olhar para referências inatingíveis. Contudo, não tenho certeza se esse resgate será por vias convencionais ou não, tendo-se em conta que há presidentes que não foram eleitos democraticamente (como Michel Temer).

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