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Arestas do Brasil / Edges of Brazil

Coisas da Internet

Bruno Peron, 13 de março de 2017

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Muitos vivenciam a Internet das Coisas, mas poucos sabem o que ela realmente é. A expressão Internet das Coisas foi proposta em 1999 por Kevin Ashton do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, da sigla em inglês). O fenômeno não é tão recente quanto a expansão de grupos e redes sociais virtuais, e o uso massivo de telefones inteligentes. Internet das Coisas é um avanço tecnológico que permite integrar à Internet vários dispositivos usados no cotidiano; por exemplo, carros, câmeras de vigilância, eletrodomésticos, relógios inteligentes, óculos especiais, televisores, maçanetas, elevadores.

O número de conexões aumenta exponencialmente no tempo em que se calcula menos o número de pessoas conectadas que o de aparelhos eletrônicos. Sendo assim, a estimativa é de que quinze bilhões desses dispositivos estão hoje ligados à Internet no mundo. Esse é um número que ultrapassa o de habitantes no planeta (que já passou a marca de sete bilhões) pelo motivo de que cada pessoa terá seu computador, seu celular, seu televisor, sua geladeira, e cada vez mais aparelhos de seu dia-a-dia vinculados à rede mundial de computadores.

A propósito, a referência à Internet como rede de computadores ficou limitada ao que era em seu primórdio. Atualmente, a Internet tem integrado pessoas, comunidades, aplicativos e cada vez mais coisas (ou dispositivos) em geral. Daí que o conceito de Kevin Ashton seja mais pertinente para entender a fase tecnológica mais atual da Internet. Nesta, o propósito é integrar o maior número de dispositivos e transformar a tecnologia em alentadora das faculdades humanas.

Até essa parte, tudo caminha bem. A Internet tem feito progressos consideráveis, até mesmo em países que não são de vanguarda científica e tecnológica. Contudo, é mister discutir os efeitos desses atrativos tecnológicos e os danos que eles podem causar em internautas. Com essa finalidade, o governo brasileiro promoveu uma consulta pública, que durou de meados de dezembro de 2016 a 6 de fevereiro de 2017; o prazo foi prorrogado. O objetivo desse procedimento é coletar informações da população para desenvolver o Plano Nacional de Internet das Coisas. O sítio participa.br recebeu mais de 22.000 acessos e 2.288 sugestões visando ao Plano Nacional de Internet das Coisas e à intenção do governo de acompanhar com cautela esse desenvolvimento tecnológico no Brasil.

É verdade que o Brasil não é o único país cujos governantes se preocupam com as novas tecnologias. Há pouco tempo, a Alemanha demonstrou sua inquietação frente a denúncias de espionagem. O que preocupa mais no Brasil é que funcionários públicos e gestores bem pagos preparam-se mais para censurar, coibir e regular que para promover a competitividade das nossas empresas e de nossos negócios. Por isso, quase sempre nos colocamos como destinatários em posição defensiva contra novas tecnologias vindas de fora.

Entretanto, o debate foca temas como privacidade (hábitos dos usuários e uso comercial dessas informações sem autorização dos mesmos) e segurança (crimes virtuais e riscos de danos às pessoas). E não só em países receptores de tecnologias, como o Brasil. É importante mencionar, entre muitos outros exemplos, que o rastreador do celular já conhece nossas rotas diárias (onde ficamos a maior parte do tempo, nossos caminhos de casa ao trabalho); e que nossos gostos musicais e listas de contato são compartilhados cada vez que instalamos um aplicativo. Também, um mal-intencionado poderá alterar a senha da maçaneta da porta através de acesso remoto.

O Brasil mostra-se vulnerável à propagação da Internet das Coisas devido a fenômenos como o Efeito WhatsApp. Este muda a rotina e a forma de convívio de todas as classes sociais e permite uma inclusão digital que até então não era possível, nem com intervenção do governo. Essa democratização só foi viável com uma tecnologia vinda de outro país. O governo brasileiro usaria dinheiro público para proteger as corporações locais de telefonia, como já fez ao bloquear o WhatsApp algumas vezes. Hoje qualquer um faz ligações telefônicas de graça, fala com outras pessoas através de videoconferência, envia e recebe mensagens e gravações. Naturalmente, o governo brasileiro indaga por que não consegue ser tão sutilmente controlador e invasivo como esses recursos tecnológicos. Cabe-nos experimentar a Internet das Coisas, mas também ponderar. Coisas da Internet.

Desenvolvimento: chiavegatti.com.br