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Arestas do Brasil / Edges of Brazil

Emoção com desinformação

Bruno Peron, 24 de março de 2017

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Bato repetidamente na tecla de que o Brasil comporta um povo criativo, afetivo, moderno e com potencial enorme de libertação de seu atraso cívico. Nosso país não se mistura somente no sangue de matrizes étnicas diferentes, mas também nos gostos e propósitos daqueles que buscam o sentido desta nação. Essa procura tem sido intermediada por estranhamentos e inseguranças entre brasileiros, que vivem infelizmente na emoção com desinformação. Que quero dizer com esta assertiva?

Penso, a princípio, na dificuldade de brasileiros de examinar informações antes de tirar conclusões. Os grandes assuntos econômicos e políticos que se instauram no Brasil trazem alguns exemplos notáveis. Um dos que mais geram polêmica é a operação Carne Fraca da Polícia Federal. Em poucos dias, pessoas pararam de ingerir proteína animal enquanto países interromperam suas importações de produtos brasileiros por causa de desinformação. Irregularidades na produção de carnes processadas transformam-se em generalização espetacular e midiática da “carne fraca”. E que sigam as emoções (asco, dúvida, revolta, mofa) de brasileiros através da circulação instantânea de mensagens pelas redes sociais (WhatsApp, Facebook, etc.).

As variações da emoção não têm sido muito diferentes no tocante aos debates sobre a reforma da Previdência Social e a reforma trabalhista. Brasileiros têm o hábito de mastigar informação pouquíssimas vezes antes de engolir, ao contrário do que os doutores preceituam. Resultado disso é novamente emoção com desinformação. Critica-se o governo por ceifar nossos direitos, que brasileiros reivindicam fortemente, embora a maioria desconheça seus deveres diante de um empregador, um vizinho, uma cidade, um país. Brasileiros acostumaram-se a conviver com a desinformação para defender seus interesses pessoais e seu modo de vida, qualquer que seja o custo social envolvido. O sistema brasileiro de aposentadoria chegou à beira do colapso por administração ruim, desvios que são rotineiros em órgãos de governo e o apelo incansável a benefícios que rendam vantagens pessoais. Porém, um extrai recursos do outro para manter o equilíbrio desse sistema. Por isso, contas negativas são indicadoras de que se tirou mais do que se contribuiu.

A situação que a reforma trabalhista enfrenta não é diferente. O regime brasileiro de contratação via Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não tem sido apto a reduzir o desemprego e aumentar a competitividade das empresas. Temos no Brasil um cenário artificial de obrigações com o trabalhador que empregadores estão cada vez mais receosos de seguir em defesa de seus negócios. Soma-se a isso a vitimização integral de funcionários em processos trabalhistas, que sugam ainda mais recursos de onde falta. Temos um sistema que leva naturalmente ao aumento de desemprego e à redução de salários. Terceirizações de todas as atividades (meio e fim) surgem como opção para o Brasil não naufragar, embora não seja solução definitiva para o problema.

O caminho à cidadania é, de fato, tortuoso para brasileiros; é como o vislumbre no horizonte de um pedacinho de esperança que não some nem aparece completamente. As emoções de brasileiros vigoram e irradiam por todos os lados. A intensidade das trocas de mensagens pelas redes sociais atesta-as com profusão. É júbilo, prazer, preocupação, rancor, vingança, maledicência por todo lado nesse foro verdadeiramente democrático que é a Internet. Contudo, algo tem ficado para trás. Pondero seriamente sobre nossa falta de formação cidadã para esquadrinhar informações, filtrá-las, regenerá-las e encaminhá-las de forma mais responsável.

Minha preocupação é com a preponderância da emoção sobre a razão na conduta espontânea de brasileiros. Pior é quando a emoção se une à desinformação; assim, tiramos conclusões precipitadas de acontecimentos, ideias e propostas. Imagino um dia em que o interesse geral será mais forte que o interesse próprio. Um dia.

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