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Arestas do Brasil / Edges of Brazil

Na perspectiva do sofá

Bruno Peron, 21 de abril de 2017

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O sofá é um móvel que comporta possibilidades várias de interação com familiares que se congregam para passar algum tempo juntos, com visitantes que se reúnem para estimular uma conversa, e combinado com o televisor como entretenimento. Penso que o sofá acomoda o corpo físico para que a imaginação se liberte. Não é à toa que o sofá geralmente está em frente de um televisor ou uma janela. Há que enxergar o mundo, que vem até nós se não formos até ele.

Apesar dos avanços ainda mais recentes que aplicativos de computadores e celulares promovem, a multiplicidade de ideias e visões de mundo tem sido possível justamente porque muitas pessoas sentam-se sobre um sofá diante de um televisor. O ato é cômodo e transmite a sensação de tomar parte de um mundo que já não é mais distante e inalcançável. É agora tangível, próximo e convoca todos a arenas virtuais de interação que deixam o mundo, para muitos, mais emocionante. Contudo, o que poucos percebem é que esse mundo colossal que a televisão nos traz tem motivos ideológicos, mercadológicos e políticos.

O aconchego do sofá em frente dessa janela televisiva que acabo de mencionar estimularam o batimento de panelas (“panelaço”) sobre janelas de edifícios e a deposição injustificada de um presidente (Dilma Rousseff). Refiro aqui a tal conforto do sofá como uma representação dos limites de nossa cidadania, ou o que tenho chamado de meia-cidadania de brasileiros. A disseminação de rumores, a atenção exagerada a pessoas (em vez de acontecimentos e ideias) e o entendimento parcial fazem-nos reféns do sofá, o consolador do lar.

O sofá simboliza também a grandeza do mundo em contraste com a pequenez do nosso saber. Cientistas descobrem fórmulas e reações químicas para que, contraditoriamente, políticos usem-nas para lançar mísseis em territórios de outros povos. A engenharia avança para que muitas pessoas não tenham ainda onde morar e as tecnologias não cheguem às mãos de quem tiver pouco dinheiro. A televisão gera perspectivas bem diversas enquanto estamos sobre o sofá, como a interação familiar em casa e a desunião de países alhures.

Grande parte dessa desunião advém da inclinação humana ao egoísmo e à ganância. Queremos mais e somente para nós aquilo que desarmoniza o mundo e cujas origens desconhecemos. Governantes fazem demonstrações de poder militar (por exemplo, os de Estados Unidos e Coreia do Norte), grupos religiosos impõem suas crenças a outrem, nações mergulham em corrupção e divisão interna (Brasil e Venezuela), e a violência deixa traços indeléveis no mundo (escombros na Síria, conflitos na África, terror em cidades globais). Que bom seria se nossos anseios se resumissem em fraternidade e compreensão!

Por sua vez, o país da exuberância de planícies e arvoredos, pela carta que Pero Vaz de Caminha assinou em maio de 1500, adia seu papel de regenerador do mundo. O Brasil consolida seu lugar como um reduto de ignorantes, colônia de meliantes e purgatório de facínoras, que avançam sobre suas presas sem freios que os estanquem. Este é o país da cultura de motoqueiros (a vantagem do barato e do rápido sem regras nem consideração pelo próximo) e da impunidade criminal. Tal é a façanha que alcança que a Operação Lava Jato e as delações dos corsários da Odebrecht provaram que os cupins se alastraram no móvel faustoso do Congresso Nacional. É preciso trocá-lo em vez de repará-lo.

Melhor que cravar o corpo no sofá e acompanhar espetáculos na televisão, é preciso entender com cotejo de ideias, opinar, tomar partido e moldar o país como o queremos. O regime democrático e uma estrutura jurídica complexa dão-nos condições para impulsionar a cidadania. Para isso, é preciso ter claro se o sofá é um suporte para passividade ou um trampolim para ideias renovadoras.

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